{"id":3687,"date":"2014-01-21T18:07:41","date_gmt":"2014-01-21T18:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/16.147.243.36\/?p=984"},"modified":"2014-01-21T18:07:41","modified_gmt":"2014-01-21T18:07:41","slug":"as-manifestacoes-de-junho-de-2013-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hahr-online.com\/pt\/as-manifestacoes-de-junho-de-2013-no-brasil\/","title":{"rendered":"As manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013 no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/16.147.243.36\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/brasilia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-985\" alt=\"brasilia\" src=\"https:\/\/16.147.243.36\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/brasilia-300x199.jpg\" width=\"300\" height=\"199\" \/><\/a><\/p>\n<p>Experimentamos nos \u00faltimos meses, no Brasil, as maiores manifesta\u00e7\u00f5es populares dos \u00faltimos 20 anos. Principalmente a partir do momento em que as manifesta\u00e7\u00f5es ganharam propor\u00e7\u00f5es gigantescas, a variedade de propostas e den\u00fancias foi enorme, quase t\u00e3o grande quanto a quantidade de sujeitos pol\u00edticos presentes nos atos. Palavras de ordem e demandas distintas como: &#8220;vem pra rua vem, contra o aumento&#8221;; &#8220;enfia os 20 centavos nos SUS\u201d (SUS \u00e9 o sistema unificado de sa\u00fade, servi\u00e7o p\u00fablico); &#8220;contra os gastos abusivos com a Copa do Mundo&#8221;; &#8220;quando ficar doente leve seu filho a um est\u00e1dio&#8221;. Apesar das v\u00e1rias proposi\u00e7\u00f5es que podiam ser lidas nos cartazes (um dos principais meios de mensagem durante as manifesta\u00e7\u00f5es), a quest\u00e3o que mobilizou e ganhou o Brasil, especialmente as grandes capitais e cidades, foi o aumento dos pre\u00e7os das passagens do transporte urbano, especialmente em face da baixa qualidade do servi\u00e7o oferecido.<\/p>\n<p>A temporalidade da pol\u00edtica indica um momento de reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as em conflito, de assimila\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o do acontecimento. H\u00e1 ainda, como talvez a maior conquista das manifesta\u00e7\u00f5es de junho, a amplia\u00e7\u00e3o da ideia do que seja p\u00fablico por parte dos movimentos e pr\u00e1ticas sociais. \u00c9 impressionante a quantidade de a\u00e7\u00f5es ocorrendo no pa\u00eds, em qualquer canto, \u00e0 prop\u00f3sito das mais variadas demandas.<\/p>\n<p>O atual contexto torna vi\u00e1vel a retomada de alguns modos de ponderar sobre a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea, fazendo uso das percep\u00e7\u00f5es tornadas vis\u00edveis pela experi\u00eancia das manifesta\u00e7\u00f5es de rua e suas significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre as ruas, em sua maior parte resultado da a\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, e os lugares institu\u00eddos de governo, sejam do Estado ou n\u00e3o, parece ser uma classifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para refletirmos sobre a atual democracia.<\/p>\n<p>Desta forma, temos, por um lado, a l\u00f3gica de governo praticada no estado democr\u00e1tico de direito, com duas caracter\u00edsticas principais: primeiro, com base na ideia de que governar \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de condu\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es dos outros e das coisas, se estabeleceu uma din\u00e2mica de c\u00e1lculos baseados na observa\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos populacionais e dos fatos a estes eventos relacionados. De posse de uma s\u00e9rie de dados e probabilidades regulares, pode-se implantar pol\u00edticas p\u00fablicas de aumento da capacidade de governo dos outros, bem como amenizar o impacto da vida social, lida a partir da ideia de produ\u00e7\u00e3o e cura do sofrimento.<\/p>\n<p>Se nesta l\u00f3gica as estat\u00edsticas formam um padr\u00e3o central para a tomada de decis\u00f5es, cresce em import\u00e2ncia a ideia do risco e das pol\u00edticas p\u00fablicas do poss\u00edvel. No c\u00e1lculo desta a\u00e7\u00e3o de condu\u00e7\u00e3o, governa-se com a busca da diminui\u00e7\u00e3o do risco, gerando determina\u00e7\u00f5es que trabalhem dentro de um padr\u00e3o da m\u00e9dia poss\u00edvel, evitando as pr\u00e1ticas que namorem com os limites e com a ruptura (a menos que possam ser usadas em favor da arte de governar), diante das quais os controles necess\u00e1rios para conduzir a vida dos outros se tornam inst\u00e1veis. Assim, perante as probabilidades e do conhecimento dos riscos criam-se pol\u00edticas estabilizantes das pr\u00e1ticas sociais, al\u00e9m das quais nada pode ser permitido. A diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento social encontra-se como um dos principais objetivos desta a\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de acabar com as desigualdades, muito menos de simplesmente manter as pr\u00e1ticas que causam o sofrimento. Trata-se, antes, de encontrar a estabilidade necess\u00e1ria, diante da qual n\u00e3o haver\u00e1 ruptura e os sujeitos alvos desta pr\u00e1tica aderem voluntariamente.<\/p>\n<p>A segunda caracter\u00edstica forte da l\u00f3gica de governo \u00e9 a temporalidade. Ela \u00e9 din\u00e2mica, na medida em que n\u00e3o est\u00e1 prioritariamente fundada em princ\u00edpios program\u00e1ticos, mas em resultados e na capacidade de fazer do governante. Este tempo altera a rela\u00e7\u00e3o com os sujeitos e os lugares da a\u00e7\u00e3o. Seu sujeito pol\u00edtico encontra-se, de modo geral, dentro das estruturas institucionais autorizadas pela lei para a produ\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas e a popula\u00e7\u00e3o alvo de sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida como objeto de sua a\u00e7\u00e3o ou como sujeito de necessidades. N\u00e3o \u00e9 pensada como sujeito pol\u00edtico ativo, mas como um elemento do c\u00e1lculo, tal como as enchentes, o tr\u00e2nsito, as vota\u00e7\u00f5es no Legislativo, a distribui\u00e7\u00e3o dos lugares e fun\u00e7\u00f5es de controle da condu\u00e7\u00e3o da vida. Os lugares fechados, de acesso limitado aos especialistas autorizados a fazer uso do discurso verdadeiro sobre a pol\u00edtica, s\u00e3o os preferidos pela l\u00f3gica de governo.<\/p>\n<p>Em lugar oposto, encontramos um outro modo de agir na pol\u00edtica, o qual chamaremos de l\u00f3gica dos movimentos sociais, de modo a permitir uma visualiza\u00e7\u00e3o mais clara de choque e contradi\u00e7\u00e3o com a l\u00f3gica de governo (o que n\u00e3o nos impede de dizer que os movimentos, ou parte deles, tamb\u00e9m trabalhem com esta l\u00f3gica).<\/p>\n<p>Na a\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais a quest\u00e3o program\u00e1tica ganha mais destaque, pois a leitura de suas pr\u00e1ticas e sua pr\u00f3pria exist\u00eancia a coloca como fundacional. E, especialmente, que a solu\u00e7\u00e3o para suas quest\u00f5es tenham o car\u00e1ter de ruptura e, por vezes, de supera\u00e7\u00e3o do problema. N\u00e3o se trata, nesta forma de agir, de diminuir o sofrimento social e de atingir uma estabilidade sob o custo de transferir para um momento futuro a possibilidade de uma condi\u00e7\u00e3o de vida diferenciada.<\/p>\n<p>H\u00e1 a constata\u00e7\u00e3o do problema por meio da experimenta\u00e7\u00e3o da falta. Perceber o disp\u00eandio de 3 a 4 horas di\u00e1rias da vida em meio a um transporte p\u00fablico de p\u00e9ssima qualidade e que toma cerca de 25% do sal\u00e1rio m\u00ednimo permite ao sujeito desta a\u00e7\u00e3o saber exatamente o que quer. S\u00e3o sujeitos de sua a\u00e7\u00e3o, ou seja, produzem seu pr\u00f3prio discurso e determinam em boa medida as suas pr\u00e1ticas. E, enquanto sujeitos, t\u00eam a no\u00e7\u00e3o de ocuparem um outro lugar no cen\u00e1rio pol\u00edtico, n\u00e3o mais como mito, nem simples \u201cprotagonista\u201d do fazer pol\u00edtico, mas como um elemento inusitado na democracia representativa do estado de direito.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica para agir dos movimentos sociais bate de frente com a viol\u00eancia do Estado, autorizada pela democracia e legitimada por parcelas conservadoras da sociedade. E, se n\u00e3o h\u00e1 escuta poss\u00edvel, pois o Estado trata esta a\u00e7\u00e3o como quest\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica, dentro da velha e ainda operante doutrina de seguran\u00e7a nacional, os movimentos tratam de ocupar ou de expandir o espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>A via das ruas e avenidas, autorizada somente aos carros, passa a ser caminho para a constru\u00e7\u00e3o de lugares de escuta. Assim, vimos a avenida 23 de maio, cl\u00e1ssico espa\u00e7o reservado na cidade de S\u00e3o Paulo a ve\u00edculos motorizados, transformar-se em um rio de multid\u00e3o cujo destino era o pr\u00f3prio caminho que se estava percorrendo. De modo semelhante, tamb\u00e9m s\u00e3o elegidos os pr\u00e9dios p\u00fablicos, s\u00edmbolos de um controle a ser modificado ou partilhado.<\/p>\n<p>Nesta l\u00f3gica de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 observada a possibilidade m\u00e9dia de condu\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, mas o diagn\u00f3stico da inaceit\u00e1vel experi\u00eancia cotidiana. Sob este olhar as proposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas insistem em algo radicalmente realista e de car\u00e1ter imposs\u00edvel para o pensamento da estabilidade e do controle.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es de junho passado e meses seguintes n\u00e3o s\u00e3o, ao que tudo indica, nenhuma grande novidade em termos do que seja o contempor\u00e2neo. Contudo, elas nos colocam diante de certas caracter\u00edsticas da a\u00e7\u00e3o que nos permite olhar para o campo de for\u00e7as em choque na pol\u00edtica de um modo diferente do tradicional, aquele sustentado pela a\u00e7\u00e3o representativa dos sindicatos, entidades de segmentos sociais e partidos. N\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o desta velha forma da pol\u00edtica, mas a entrada em jogo de modos de a\u00e7\u00e3o que apontam para uma maior responsabiliza\u00e7\u00e3o \u00e9tica do sujeito pol\u00edtico com seus lugares de pertencimento e preenchimento.<\/p>\n<p>Um importante ganho das manifesta\u00e7\u00f5es foi a quebra do fantasma da l\u00f3gica de governo. Para os novos atores de rua das principais cidades brasileiras, a necessidade de consolida\u00e7\u00e3o de uma estrutura pol\u00edtica elitizante entra em choque com a possibilidade de pr\u00e1ticas livres. As necessidades e urg\u00eancias do discurso de governo n\u00e3o legitimam mais, para\u00a0 os movimentos de junho, as pol\u00edticas p\u00fablicas deficientes. Muito menos autorizam o acionamento de pequenos estados de exce\u00e7\u00e3o com a justificativa de manter a governabilidade e o car\u00e1ter est\u00e1vel deste projeto autorit\u00e1rio de democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Experimentamos nos \u00faltimos meses, no Brasil, as maiores manifesta\u00e7\u00f5es populares dos \u00faltimos 20 anos. Principalmente a partir do momento em que as manifesta\u00e7\u00f5es ganharam propor\u00e7\u00f5es gigantescas, a variedade de propostas e den\u00fancias foi enorme, quase t\u00e3o grande quanto a quantidade de sujeitos pol\u00edticos presentes nos atos. 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