{"id":2556,"date":"2015-04-29T22:24:06","date_gmt":"2015-04-29T22:24:06","guid":{"rendered":"https:\/\/16.147.243.36\/?p=2556"},"modified":"2015-04-29T22:24:06","modified_gmt":"2015-04-29T22:24:06","slug":"apresentacao-do-livro-de-amy-chazkel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hahr-online.com\/pt\/apresentacao-do-livro-de-amy-chazkel\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Amy Chazkel"},"content":{"rendered":"<p><strong>Apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Amy Chazkel: <em>Leis da sorte<\/em>.\u00a0<\/strong><strong>CPDOC \u2013 FGV \u2013 29 de abril de 2015.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O livro que hoje tenho a honra de comentar foi publicado primeiro em ingl\u00eas, em 2011, pela Duke University Press, em 2011. Agora a editora da Unicamp nos faz um grande favor: publicar uma boa tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas que nos permite, aos professores de hist\u00f3ria das universidades brasileiras, levar este texto para sala de aula da gradua\u00e7\u00e3o. <em>Leis da sorte<\/em> oferece uma genealogia e uma arqueologia fundamental do jogo do bicho. O livro \u00e9 exatamente isso, mas tamb\u00e9m \u00e9 um pouco mais. Seria injusto n\u00e3o reconhecer que suas conclus\u00f5es extrapolam, e muito, o campo de estudos sobre os jogos de azar, os jogos clandestinos e os mercados de entretenimento. Gostaria de argumentar aqui que o livro traz \u00e0 tona uma s\u00e9rie de quest\u00f5es centrais para compreender a conturbada hist\u00f3ria da vida p\u00fablica no Rio de Janeiro. Quest\u00f5es, ali\u00e1s, de uma not\u00e1vel atualidade: a rela\u00e7\u00e3o entre os projetos urban\u00edsticos e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria; a tens\u00e3o entre os grandes neg\u00f3cios e a economia informal da cidade; a interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia nas formas de exist\u00eancia e de sobreviv\u00eancia das classes populares, e ilegalidade rotineira da a\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Assim, as p\u00e1ginas iniciais do livro sobre as \u201corigens do jogo do bicho\u201d, seguem a hist\u00f3ria de como esse jogo saiu dos muros do zool\u00f3gico, escapando das m\u00e3os do seu progenitor, o Bar\u00e3o de Drummond, e invadindo a cidade do Rio de Janeiro. Este come\u00e7o nos permite pensar a complexa intera\u00e7\u00e3o entre o empreendedorismo privado \u2013 atrelado \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es urbanas da Belle \u00c9poque carioca \u2013 e as pol\u00edticas do governo municipal. A autora aborda o complexo dilema entre a proibi\u00e7\u00e3o e a regulamenta\u00e7\u00e3o de atividades frequentes e vis\u00edveis na vida p\u00fablica urbana. Atividades que iam, ali\u00e1s, muito al\u00e9m do jogo do bicho. O mesmo dilema estava presente, por exemplo, no grande debate sobre a prostitui\u00e7\u00e3o na Primeira Rep\u00fablica, que tem muitos pontos em comum com a forma em que foi problematizada a \u201cquest\u00e3o\u201d do jogo do bicho.<\/p>\n<p>O livro continua com uma an\u00e1lise das \u201cregras do jogo\u201d, n\u00e3o no jogo do bicho em si, mas dos c\u00f3digos expl\u00edcitos e impl\u00edcitos que regulavam sua exist\u00eancia nos espa\u00e7os da cidade. Nesta parte entra a rela\u00e7\u00e3o entre a codifica\u00e7\u00e3o penal, o funcionamento concreto da justi\u00e7a criminal e a a\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m concreta \u2013 da pol\u00edcia. A partir de 1895, nos explica Amy, a pol\u00edcia prendia pessoas envolvidas com o jogo do bicho. Muitos eram detidos, alguns tinham dinheiro para pagar fian\u00e7as, outros permaneciam algum tempo na Casa de Deten\u00e7\u00e3o, mas quase nenhum era efetivamente considerado culp\u00e1vel no julgamento. Esta evid\u00eancia emp\u00edrica \u00e9 certamente resultado de um trabalho muito s\u00e9rio, cotejando os volumes encadernados dos Registros de Senten\u00e7as Criminais, que est\u00e3o no Arquivo Nacional, e os Livros manuscritos de entradas na Casa de Deten\u00e7\u00e3o, do Arquivo P\u00fablico do Estado. No entanto, talvez o mais interessante desse cap\u00edtulo n\u00e3o seja essa evid\u00eancia emp\u00edrica, mas a forma em que a autora a interpreta. Concluir que a lei ou a justi\u00e7a \u201cfracassavam\u201d ou \u201cfalhavam\u201d seria a an\u00e1lise mais \u00f3bvia, mais simples. Por\u00e9m, Amy prefere seguir o caminho de interpretar como a lei era <em>praticada<\/em> e entender, assim, a ilegalidade ambivalente do jogo do bicho. E a lei n\u00e3o era praticada s\u00f3 pelos ju\u00edzes: seus usos estrat\u00e9gicos se estendiam desde os policiais at\u00e9 os comerciantes, bicheiros e banqueiros. Os policiais usavam a criminaliza\u00e7\u00e3o do jogo para pedir dinheiro aos comerciantes bicheiros em troca de prote\u00e7\u00e3o, e esses comerciantes podiam tamb\u00e9m usa-la para punir a um intermedi\u00e1rio que n\u00e3o cumprisse com suas obriga\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o o \u201cfracasso\u201d perde aqui sentido de um car\u00e1ter inerte da lei, uma lei de efeitos, sem for\u00e7a, que n\u00e3o mobiliza nada, porque estes diferentes usos estrat\u00e9gicos, d\u00e3o conta de pr\u00e1ticas sociais que a lei permite apesar, ou muito al\u00e9m, de seu suposto \u201cfracasso\u201d.<\/p>\n<p><em>Leis da sorte<\/em> tem ainda muito a dizer sobre quest\u00f5es fundamentais da vida p\u00fablica urbana do Rio de Janeiro e avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria do pequeno com\u00e9rcio popular, do mercado informal, que foi objeto tamb\u00e9m de um importante livro de Fabiane Popinigis, <em>Protel\u00e1rios de casaca<\/em>, tamb\u00e9m publicado pela editora da Unicamp. Para Amy, a not\u00e1vel ubiquidade do jogo do bicho segue a pr\u00f3pria ubiquidade do mundo do com\u00e9rcio varejista. Cito uma passagem que acho muito bonita: \u201cO interc\u00e2mbio furtivo de pequenas quantias de dinheiro por uma chance de ganhar normalmente ocorria no decorrer do com\u00e9rcio cotidiano: nas ruas, dentro das lojas, em frente aos port\u00f5es das f\u00e1bricas, ou seja, no espa\u00e7o p\u00fablico. Bicheiros eram vendedores ambulantes. Eles trilhavam as plataformas dos bondes e vendiam produtos secos nas lojas de bairro. Varriam o ch\u00e3o dos a\u00e7ougues. Tinham pequenas empresas de venda de cart\u00f5es-postais e vendiam bilhetes da loteria legal nos quiosques das esquinas\u201d (p. 130).<\/p>\n<p>A conex\u00e3o entre o jogo do bicho e o com\u00e9rcio de rua, o com\u00e9rcio varejista urbano, era total, de uma intimidade absoluta. E as inquieta\u00e7\u00f5es morais com o jogo do bicho \u2013 explica Amy \u2013 n\u00e3o surgiram porque ele fosse um tipo de jogo, mas porque ele era um tipo de com\u00e9rcio. A forma em que ocorreu primeira campanha geral contra o jogo do bicho, em 1913, a maneira em que a pol\u00edcia atuou nela, refletia a pr\u00f3pria geografia moral do com\u00e9rcio no Rio de Janeiro. A grande presen\u00e7a, por exemplo, de imigrantes portugueses entre os detidos revela que a persegui\u00e7\u00e3o seletiva seguia tes\u00f5es sociais existentes, como a hostiliza\u00e7\u00e3o do comerciante portugu\u00eas. Uma parte do livro me parece absolutamente reveladora do trabalho fino que Amy faz com as fontes, da sua capacidade de ler a documenta\u00e7\u00e3o a contrapelo, de se deslocar de um olhar de cima pra baixo para outro de baixo para cima, preocupando-se por reconstruir sempre o ponto de vista do ator. Me refiro \u00e0s p\u00e1ginas onde ela se pergunta por que nos Livros de entradas na Casa de Deten\u00e7\u00e3o havia tantos registros de detentos \u201csem profiss\u00e3o\u201d. A autora se pergunta quem seriam esses sem-profiss\u00e3o, indaga profundamente essa lacuna, esse sil\u00eancio do arquivo, e, atrav\u00e9s do cruzamento de fontes, chega \u00e0 conclus\u00e3o de que eles eram tamb\u00e9m comerciantes, caixeiros e balconistas, empregos que para muitos policiais n\u00e3o era \u201crespeit\u00e1vel\u201d, era quase uma forma de vadiagem, assim como os vendedores ambulantes, aqueles camel\u00f4s que tanto fascinavam a Jo\u00e3o do Rio no livro <em>A alma encantadora das ruas<\/em>, e que eram fundamentais para o com\u00e9rcio cotidiano do jogo do bicho, mas tampouco tinham um lugar de destaque nos registros prisionais.<\/p>\n<p>Enfim&#8230; especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, grandes neg\u00f3cios e pequeno com\u00e9rcio varejista, vendedores ambulantes, policiais perseguindo pr\u00e1ticas das classes populares, policiais construindo redes de ilegalidade: temas, como falei, de enorme relev\u00e2ncia hist\u00f3rica e de grande atualidade. Eu fiz um c\u00e1lculo: poderia dedicar a cada um destes temas tr\u00eas horas. S\u00e3o aproximadamente cinco temas. Ou seja que daria umas 15 horas de coment\u00e1rios. Mas fiquei sabendo que a FGV fecha meia-noite, ent\u00e3o tenho uma boa not\u00edcia para voc\u00eas: vou focar o final desta fala em um \u00fanico tema e a falar apenas mais 10 minutos. Esse tema \u00e9 o dinheiro. Gostaria de argumentar aqui que o livro<em> Leis da sorte<\/em> traz uma an\u00e1lise muito original sobre a \u201cvida urbana\u201d do dinheiro. Amy n\u00e3o cita Simmel no livro, e nem sei mesmo se a obra dele (em espacial, <em>Filosofia do dinheiro<\/em>) foi fundamental na forma\u00e7\u00e3o da autora, mas quero defender a ideia de que <em>Leis da sorte<\/em> \u00e9 um livro localizado no rastro simmeliano, no sentido de oferecer uma abordagem sociol\u00f3gica do dinheiro, aut\u00f4noma e cr\u00edtica das perspectivas predominantes na ci\u00eancia econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>As leituras economicistas do dinheiro se baseiam numa distin\u00e7\u00e3o forte entre \u2013 de um lado \u2013 a esfera dos interc\u00e2mbios utilit\u00e1rios, instrumentais e profanos (digamos, o \u201cmercado\u201d como modelo das transa\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias) e \u2013 do outro \u2013 os significados sociais, culturais e sagrados. Seriam, ent\u00e3o, mundos irreconcili\u00e1veis: onde h\u00e1 vida social, valores, n\u00e3o h\u00e1 dinheiro, e onde h\u00e1 dinheiro n\u00e3o h\u00e1 valores, ou pelo menos n\u00e3o h\u00e1 outro valor do que o valor do dinheiro. Uma coisa seriam os fatos econ\u00f4micos e outra coisa os fatos sociais. Simmel tentou quebrar essa distin\u00e7\u00e3o e sugeriu que o dinheiro podia ser um objeto da ci\u00eancia social. Por\u00e9m, ele preservava a ideia de que a presen\u00e7a do dinheiro na vida social tinha efeitos destrutivos: os v\u00ednculos sociais se tornam mais frios, impessoais, calculadores, instrumentais. Permitam-me uma breve cita de Simmel: \u201ca no\u00e7\u00e3o inibit\u00f3ria \u2013 dizia \u2013 de que certas somas de dinheiro s\u00e3o malditas ou est\u00e3o manchadas de sangue, s\u00e3o sentimentalismos que perdem qualquer significado diante da crescente indiferen\u00e7a do dinheiro\u201d. \u00c9 dizer que para Simmel n\u00e3o existia dinheiro bom e dinheiro ruim, dinheiro limpo e dinheiro sujo. Como meio abstrato de interc\u00e2mbio, o dinheiro matava significados sociais, transformava tudo em uma realidade abstrata, quantific\u00e1vel, fria, cinzenta.<\/p>\n<p>Pois bem, eu acho que a hist\u00f3ria do jogo do bicho no Rio de Janeiro refuta estas ideias do Simmel. Quando falei que <em>Leis da sorte<\/em> est\u00e1 no rastro simmeliano, n\u00e3o me referia a que chegasse \u00e0s mesmas conclus\u00f5es, mas sim a que tem um mesmo ponto de partida: a centralidade do dinheiro nas intera\u00e7\u00f5es da vida metropolitana. \u00c9 dif\u00edcil para nossos contempor\u00e2neos n\u00e3o historiadores, e talvez tamb\u00e9m para muitos historiadores, imaginar que no per\u00edodo imperial o dinheiro n\u00e3o era o \u00fanico meio de obter bens materiais, nem sequer o meio predominante. Alimentos, mat\u00e9rias primas, terras e escrevo eram meios de troca e o Imp\u00e9rio deixou a linhagem de uma economia sub-monetizada. A inven\u00e7\u00e3o do jogo do bicho e sua not\u00e1vel prolifera\u00e7\u00e3o na capital da Rep\u00fablica aconteceu em um momento de brutal transforma\u00e7\u00e3o do papel do dinheiro na vida econ\u00f4mica e social, cujo epis\u00f3dio mais conhecido foi o Encilhamento.<\/p>\n<p>A especula\u00e7\u00e3o financeira e as consequ\u00eancias das promessas de lucro f\u00e1cil que rodearam esse epis\u00f3dio s\u00e3o bem conhecidas, como s\u00e3o bem conhecidas tamb\u00e9m as den\u00fancias sobre os in\u00fameros \u201carrivistas\u201d que buscavam enriquecimento r\u00e1pido com a fren\u00e9tica e ca\u00f3tica circula\u00e7\u00e3o do dinheiro nas primeiras d\u00e9cadas da Rep\u00fablica. Mas Amy nos explica que a trama cotidiana do jogo do bicho n\u00e3o tinha muito a ver com essa loucura do <em>boom<\/em> especulativo, que seguia ritmos mais moderados, mais conservadores. Cito mais uma vez: \u201cA maior parte dos jogadores apostava quantias muito pequenas de dinheiro nas variantes com maiores chances de ganhar. Os compradores de bilhetes n\u00e3o estavam jogando com as flutua\u00e7\u00f5es nos pre\u00e7os ou valores da moeda porque o jogo funcionava diariamente, e os jogadores tinham apenas tr\u00eas dias para receber o pr\u00eamio com seu bilhete vencedor\u201d (p. 189).<\/p>\n<p>O bilhete do jogo do bicho era uma forma de circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, mas o \u201cuso l\u00fadico e criativo do dinheiro\u201d, diz a autora, n\u00e3o era uma exclusividade desta pr\u00e1tica ilegal: era um \u201ctra\u00e7o cotidiano da economia popular\u201d no come\u00e7o da Primeira Rep\u00fablica. Amy n\u00e3o faz refer\u00eancia ao Simmel, mas sim menciona um livro muito importante para pensar estas quest\u00f5es: <em>O significado social do dinheiro<\/em>, de Viviana Zelizer. Nesse livro, Zelizer estuda como, na economia cotidiana dos Estados Unidos, quase no mesmo per\u00edodo, o dinheiro n\u00e3o avan\u00e7ava matando significados sociais e culturais, mas criando significados novos. Na terra do d\u00f3lar, digamos, um d\u00f3lar n\u00e3o era um d\u00f3lar. As pessoas \u201cmarcavam\u201d o dinheiro com complexos sistemas de distin\u00e7\u00f5es e classifica\u00e7\u00f5es. Nos homens, por exemplo, o dinheiro do sal\u00e1rio podia ser usado para a contrata\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o sexual, mas n\u00e3o o dinheiro de uma heran\u00e7a. Diferentemente das intui\u00e7\u00f5es do Simmel, havia sim dinheiro bom e dinheiro ruim, dinheiro limpo e dinheiro sujo, dinheiro confi\u00e1vel e dinheiro suspeito. Essa marca\u00e7\u00e3o informal do dinheiro \u00e9, para Zelizer, \u201cum fen\u00f4meno t\u00e3o poderoso como a produ\u00e7\u00e3o oficial de moeda de curso legal\u201d (p. 37).<\/p>\n<p>As formas ilegais do dinheiro, como os bilhetes de loterias clandestinas, as notas e moedas falsas, s\u00e3o apenas uma parte de este processo, mas s\u00e3o certamente uma parte importante. A circula\u00e7\u00e3o destas formas ilegais era um grande problema para a pol\u00edcia: o dinheiro nunca deixava rastro. Quando a pol\u00edcia invadia uma casa com mandato de apreens\u00e3o, tanto em casos de propriedades que eram f\u00e1bricas de dinheiro falso como em casas onde se administrava o jogo do bicho, raramente encontrava provas. A natureza do dinheiro consiste em circular. Nossas carteiras e nossas contas banc\u00e1rias testemunham isso: quando vamos buscar o dinheiro, j\u00e1 era, sumiu. Da mesma maneira, quando a pol\u00edcia ficava sabendo de uma f\u00e1brica de dinheiro falso, o dinheiro falso j\u00e1 estava na rua e os fals\u00e1rios, provavelmente noutro pa\u00eds. Essa mesma dificuldade da pol\u00edcia e da justi\u00e7a se transforma em obst\u00e1culo para o trabalho dos historiadores. Como n\u00e3o havia provas, tampouco abundam as fontes documentais. Enfim, sobre o inquietante parecido do of\u00edcio policial com o <em>m\u00e9tier<\/em> do historiador, n\u00e3o vou falar, por falta de tempo e porque j\u00e1 Carlo Ginzburg falou bastante&#8230; e tamb\u00e9m acabou meu tempo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quero encerrar este coment\u00e1rio sem destacar que Amy consegue superar com folga o problema da n\u00e3o abundancia de evid\u00eancias que em geral caracteriza o estudo da circula\u00e7\u00e3o de dinheiro ilegal. Seu livro n\u00e3o \u00e9 apenas um grande aporte para os que trabalhamos na \u00e1rea de hist\u00f3ria do crime, da pol\u00edcia e da justi\u00e7a criminal. N\u00e3o s\u00f3 mostra uma enorme originalidade no tratamento da documenta\u00e7\u00e3o policial e dos processos-crime. Atrav\u00e9s do estudo do jogo do bicho, <em>Leis da sorte<\/em> \u00e9 um livro t\u00e3o importante para a historiografia brasileira como o livro de Zelizer foi para a hist\u00f3ria social e cultural do dinheiro nos Estados Unidos. Sugere outra forma de pensar a monetariza\u00e7\u00e3o da vida social e econ\u00f4mica na Primeira Rep\u00fablica, onde o dinheiro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um destrutor de v\u00ednculos e significados sociais. Mostra um paradoxo: a monetariza\u00e7\u00e3o da vida carioca, longe de padronizar o com\u00e9rcio e a economia, inventou novas formas de improvisa\u00e7\u00e3o. Inventou, por exemplo, o jogo do bicho. O dinheiro e, em particular, a circula\u00e7\u00e3o de n\u00fameros em forma de papel, em vez de fazer a vida do povo mais cinzenta, \u201cdeu \u00e0s pessoas algo com que brincar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Amy Chazkel: Leis da sorte.\u00a0CPDOC \u2013 FGV \u2013 29 de abril de 2015. &nbsp; O livro que hoje tenho a honra de comentar foi publicado primeiro em ingl\u00eas, em 2011, pela Duke University Press, em 2011. Agora a editora da Unicamp nos faz um grande favor: publicar uma boa tradu\u00e7\u00e3o ao portugu\u00eas que nos permite, aos professores de hist\u00f3ria das universidades brasileiras, levar este texto para sala de aula da gradua\u00e7\u00e3o. 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