{"id":2232,"date":"2015-07-28T15:04:14","date_gmt":"2015-07-28T15:04:14","guid":{"rendered":"https:\/\/16.147.243.36\/?p=2232"},"modified":"2015-07-28T15:04:14","modified_gmt":"2015-07-28T15:04:14","slug":"a-construcao-em-abismo-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hahr-online.com\/es\/a-construcao-em-abismo-da-historia\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o em abismo da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s o Golpe Militar de 1964, duas de ditadura e tr\u00eas de democracia, o pa\u00eds vive a publiciza\u00e7\u00e3o dos trabalhos de apura\u00e7\u00e3o do per\u00edodo ditatorial. S\u00e3o os relat\u00f3rios das comiss\u00f5es da verdade em suas v\u00e1rias inst\u00e2ncias. No \u00faltimo dia 12 de mar\u00e7o foi lan\u00e7ado o Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade Rubens Paiva, do Estado de S\u00e3o Paulo. Em pouco mais de dois anos de trabalhos, especialmente focados nos casos de mortos e desaparecidos, a Comiss\u00e3o teve como m\u00e9todo principal de reconstitui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria a audi\u00e7\u00e3o das pessoas que viveram o per\u00edodo.<\/p>\n<p>No\u00a0<a href=\"http:\/\/www.verdadeaberta.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">material publicado<\/a>\u00a0constam narrativas de sobreviventes, testemunhas, militantes, ex-presos pol\u00edticos, familiares de v\u00edtimas, pessoas que eram crian\u00e7as e adolescentes na \u00e9poca. Centenas de documentos, publica\u00e7\u00e3o aberta de livros e a biografia dos mortos e desaparecidos na ditadura est\u00e3o entre os principais conte\u00fados do Relat\u00f3rio. O primeiro cap\u00edtulo se dedica a elencar recomenda\u00e7\u00f5es para as institui\u00e7\u00f5es do Estado de Direito, seja para as pol\u00edticas de mem\u00f3ria, seja para cobrar a aus\u00eancia de atos de justi\u00e7a, com a reinterpreta\u00e7\u00e3o da Lei de Anistia e a puni\u00e7\u00e3o dos torturadores.<\/p>\n<p>Uma caracter\u00edstica forte deste documento \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o feita entre a repress\u00e3o e a viol\u00eancia do per\u00edodo ditatorial e a repeti\u00e7\u00e3o de certa estrutura autorit\u00e1ria na democracia. Os mecanismos de repress\u00e3o policial, de acobertamento destas a\u00e7\u00f5es por parte de outras institui\u00e7\u00f5es e a presen\u00e7a de um discurso legitimador da viol\u00eancia do Estado s\u00e3o identificados como estruturas que permanecem em democracia, tendo como alvo principal a popula\u00e7\u00e3o pobre da periferia. No ato de lan\u00e7amento do Relat\u00f3rio estavam lado a lado familiares das v\u00edtimas da ditadura e familiares das v\u00edtimas do estado democr\u00e1tico. \u00c0 Comiss\u00e3o de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos juntou-se o movimento M\u00e3es de Maio para denunciar a presen\u00e7a de um projeto pol\u00edtico autorit\u00e1rio presente e forte no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar do tom de vit\u00f3ria, afinal s\u00e3o estes os anos em que apuramos minimamente o que foi a ditadura militar, percebe-se naquilo que n\u00e3o foi dito a aus\u00eancia do al\u00edvio e da conclus\u00e3o da elabora\u00e7\u00e3o de um luto.<\/p>\n<p>Constata-se que o Estado brasileiro n\u00e3o abriu seus arquivos e que as informa\u00e7\u00f5es das For\u00e7as Armadas continuam sonegadas no debate p\u00fablico. Navegando pelas biografias das v\u00edtimas fatais da ditadura percebe-se que h\u00e1 vers\u00f5es diferentes para um mesmo indiv\u00edduo, ou mesmo d\u00favidas sobre as circunst\u00e2ncias de suas mortes. No caso dos desaparecidos pol\u00edticos, muito continua ainda em aberto em fun\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia de seus corpos, de suas hist\u00f3rias\u2026 Os poucos que foram resgatados das valas clandestinas nas quais a ditadura os lan\u00e7ou tiveram esta sorte \u00fanica e exclusivamente por conta do esfor\u00e7o e da a\u00e7\u00e3o individual dos seus familiares. O Estado at\u00e9 agora n\u00e3o localizou ou identificou um \u00fanico desaparecido. Em 2015, n\u00e3o temos um \u00fanico torturador condenado em ju\u00edzo penal. Poucos s\u00e3o os processos. A hist\u00f3ria contada hoje \u00e9 aquela sem vida, sem presen\u00e7a no fluxo de nossas exist\u00eancias. Correm o s\u00e9rio risco de ficarem empoeiradas nos museus e nas teses acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>Os trabalhos das comiss\u00f5es da verdade, as v\u00e1rias instaladas no pa\u00eds desde 2012, configuram-se como constru\u00e7\u00f5es em abismo. \u00c9 como se todo o esfor\u00e7o de apura\u00e7\u00e3o tivesse chegado \u00e0 constata\u00e7\u00e3o do vazio da experimenta\u00e7\u00e3o deste passado recente. Abismo porque quanto mais se lan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada verdade, mais se confirma que nada ser\u00e1 desvelado. A mem\u00f3ria que se constr\u00f3i \u00e9 a do irrealiz\u00e1vel acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es determinantes dos acontecimentos. \u00c9 aquela que a \u201ccorrela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as permitiu\u201d. A avalia\u00e7\u00e3o que se extrai \u00e9 a de que certo projeto pol\u00edtico autorit\u00e1rio permanece atuante e segue ainda mais fortalecido. Aos familiares de v\u00edtimas da ditadura a constru\u00e7\u00e3o em abismo vem a corroborar a sensa\u00e7\u00e3o de que vivem a impossibilidade do luto e de que sua luta terminar\u00e1 apenas com a pr\u00f3pria morte de suas exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Quanto mais se deslocam no tempo, menos pot\u00eancia temos para fazer daqueles eventos uma experi\u00eancia. O abismo seria a cena do anjo de Paul Klee, como observou Walter Benjamin, que sofre o sopro do progresso impedindo a compreens\u00e3o das ru\u00ednas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Este vazio da experi\u00eancia torna-se ainda mais concreto nas manifesta\u00e7\u00f5es alienadas e conservadores dos \u00faltimos dias. Assistir \u00e0 encena\u00e7\u00e3o do discurso de polariza\u00e7\u00e3o da luta pol\u00edtica \u00e9, de certo modo, a vit\u00f3ria dos golpes contra a democracia. N\u00e3o h\u00e1 golpismo a caminho, n\u00f3s j\u00e1 fomos atingidos. Quando a hist\u00f3ria se apresenta fria, sintetizada pelos pactos pol\u00edticos, sem a pulsa\u00e7\u00e3o das ruas \u00e9 porque a pot\u00eancia da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de criar novos caminhos foi golpeada. Assistir jovens serem espancados e presos pela pol\u00edcia em manifesta\u00e7\u00f5es contra aumento da tarifa do transporte, neste contexto de oculta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia vivida pela gera\u00e7\u00e3o desaparecida na ditadura, \u00e9 o sinal de que n\u00e3o h\u00e1 o que comemorar. Estes relat\u00f3rios servem como ferramentas para a repeti\u00e7\u00e3o de velhos questionamentos, para os quais mesmo que n\u00e3o se tenha respostas, precisam ser feitos e refeitos:<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 Andr\u00e9 Grabois?*<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 Amarildo?<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o?<\/p>\n<p>Neste abismo entre o passado e o futuro \u00e9 sempre bom lembrar de Hannah Arendt, para quem os \u201ctempos sombrios\u201d podem ser a abertura para processos criativos.<\/p>\n<p><em>*\u00a0<strong>Andr\u00e9 Grabois<\/strong>\u00a0\u00e9 meu tio, desaparecido na Guerrilha do Araguaia, provavelmente no final do ano de 1973. Conferir a parte conhecida de sua hist\u00f3ria no portal\u00a0<a href=\"http:\/\/www.desaparecidospoliticos.org.br\/pessoa.php?id=54\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desaparecidospoliticos.org.br<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s o Golpe Militar de 1964, duas de ditadura e tr\u00eas de democracia, o pa\u00eds vive a publiciza\u00e7\u00e3o dos trabalhos de apura\u00e7\u00e3o do per\u00edodo ditatorial. S\u00e3o os relat\u00f3rios das comiss\u00f5es da verdade em suas v\u00e1rias inst\u00e2ncias. No \u00faltimo dia 12 de mar\u00e7o foi lan\u00e7ado o Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade Rubens Paiva, do Estado de S\u00e3o Paulo. 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